Clique no link RESTvol1-n2 para acessar a nova edição da Revista Brasileira de Estudos EstratégicosO primeiro número desta revista terminava seu editorial de apresentação afirmando as seguintes diretrizes: “A REST, atenta ao princípio da qualidade, abre-se à pluralidade das opções interpretativas”.
Este segundo número que agora chega ao leitor mantém e amplia a diversidade temática na área dos Estudos Estratégicos, sem abrir mão do rigor seletivo. Em relação a esse último aspecto, basta dizer que chegou à redação mais de 40 artigos e foram escolhidos pelo comitê editorial apenas sete. Quanto à riqueza dos assuntos abordados, assim como à variedade das perspectivas adotadas, as exigências foram também satisfeitas. Embora seja algo arbitrário a diferenciação das abordagens, pode-se propor que, grosso modo, três trabalhos partem da angulação propriamente estratégica enquanto que os outros comportam a compreensão jurídica no campo das relações internacionais, histórica e econômica. Os assuntos nacionais e estrangeiros estão bem divididos, havendo predominância cosmopolita, já que, entre os sete artigos selecionados, quatro são voltados “para fora”: um se detém sobre a antiga Iugoslávia; outro sobre o Oriente Médio; e dois dirigem suas atenções para a América do Sul / América Latina. A cooperação civil-militar - que tipifica o grupo de trabalho da UFF na área dos Estudos Estratégicos – está igualmente presente, porquanto dois dos colaboradores são oficiais superiores das Forças Armadas brasileiras com formação acadêmica civil. Vale realçar ainda que a REST não pretende atuar como mero canalizador da produção doméstica, mas, antes, servir como meio de divulgação das contribuições de ponta da comunidade brasileira que atua na área. Não há, neste número, nenhuma contribuição do quadro permanente de docentes da UFF. As duas registradas são as de um doutorando e a de um colaborador do Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos da Defesa e Segurança (PPGEST) da UFF.
As colaborações selecionadas servem para colocar em evidência que a comunidade de pesquisadores brasileiros na área está alargando seu escopo de pesquisa. Resultam, talvez, de circunstâncias que modificaram, rápida e recentemente, as preocupações estratégicas no País. Assim, se é perene a necessidade de se investigar, do ponto de vista histórico, a formação de nossas forças armadas; por outro, verifica-se a tentativa de entender o mundo que nos cerca a partir das preocupações nacionais, com “nossos próprios olhos”.
Antônio H. Lucena e Augusto W. M. T. Júnior são membros do Núcleo de Desenvolvimento e Região (D&R) da Universidade Federal de Pernambuco e assinam em conjunto o artigo “Rearmamento e a geopolítica regional da América do Sul: entre os desafios domésticos e a autonomia estratégica.” Trata-se de avaliação importante na conjuntura presente; são da maior importância as conclusões do trabalho para a compreensão do futuro estratégico da região. Os formuladores de nossa política de defesa e segurança hemisférica precisam – e precisarão cada vez mais - de elementos de convicção que expliquem por um lado, a incompatibilidade estratégica entre o peso econômico e geopolítico do Brasil em relação aos seus vizinhos; e, por outro, dados a respeito de como nossos vizinhos entendem suas próprias posições em relação ao Brasil.
Carlos F. D. Ávila, pesquisador e docente do Curso de Relações Internacionais do Centro Universitário UNIEURO (Brasília, DF) inspeciona a temática da energia e sua dimensão geopolítica para o continente no artigo “Energia e política intra-regional na América Latina: Cooperação e conflito nos primeiros anos do século XXI.” A escassez energética será um dos dados mais importantes do século XXI. O Brasil, em muitos aspectos, deverá ter condições para encontrar saídas positivas para o seu potencial. Mas a situação não é a mesma, nem na região, nem fora dela. A relação entre energia e política, historicamente, em termos estratégicos, é sempre potencialmente tensa, o que torna particularmente atrativa a investigação.
Carlos G. Teixeira, doutorando no Graduate Program in International Studies at Old Dominion University (Norfolk, Virginia – USA / CAPES/Fulbright), analisa em seu artigo “Making it hard to win: the meaning of victory and the Iraq War” a singularidade do teatro de operações no Iraque e a implicação, ou não, do sentido de vitória militar de acordo com seu status clássico. Nada mais atual, quando os compêndios militares em todo o mundo têm dificuldades de assimilar as implicações do uso do vetor militar nos conflitos do século XXI.
Carlos E. R. Ferreira, professor do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, contribui com “A intervenção militar da OTAN na Iugoslávia como um ponto de inflexão no quadro das relações internacionais pós-Guerra Fria – dois coelhos numa cajadada só: o desrespeito ao Direito Internacional e o soterramento de uma segurança e europeia independente.” Explora a perspectiva do direito internacional, o impacto das ações da OTAN e a reverberação destas para o entorno estratégico europeu durante o processo de conflito na antiga Iugoslávia.
“A seleção dos oficiais do exército brasileiro durante o Estado Novo” tem como autor Fernando S. Rodrigues, professor do Programa de Pós-Graduação em História (Mestrado) da USS e Professor da Graduação de História do UNIABE. Em seu trabalho ele analisa o processo de seleção de oficiais durante o período no qual o General Eurico Gaspar Dutra foi Ministro da Guerra. O artigo aborda o processo de seleção e, principalmente, os critérios vigentes no contexto político e social que naquela época predominava. Trata-se de análise histórica de cunho sociológico que põe em questão a chamada “neutralidade” dos critérios empregados para a ascensão na hierarquia militar.
“Defesa da Cultura e Cultura da Defesa”, de Jorge Calvário dos Santos, Doutor em Ciências pela COPPE/UFRJ, Coronel Aviador (R1), assessor do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra, explora a dimensão da cultura como elemento radical para a estruturação da nação brasileira. Seu objetivo maior não é, contudo, o estudo antropológico da cultura, mas a relação entre o modo de como se pensa e se age com a defesa nacional. O ensaio polemiza questão contida na Estratégia Nacional de Defesa (END) que vislumbra, como cenário possível, a necessidade de a nação brasileira confrontar-se com ameaças externas provocadas por inimigo superior.
Finalmente, Mauro Barbosa Siqueira, Tenente-Coronel Aviador, Mestre em Ciência Política na área de Estudos Estratégicos e doutorando na mesma área do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFF, adianta em seu artigo “Poder Aeroespacial Brasileiro: Dissuasão como Sentimento de Segurança, Coerção como Medida Eficaz à Defesa Nacional”, resultados preliminares de pesquisa maior que realiza sobre o tema. Observe-se que, ao contrário do autor anterior, o pesquisador foca seus interesses na questão da dissuasão, e não da defesa. No entanto, em muitos aspectos, suas preocupações são convergentes, já que, como lembraria Glenn Snyder, dissuasão e defesa são duas faces de uma mesma moeda político-estratégica.
Os participantes deste número, todos eles brasileiros, são egressos de sete instituições distintas, uma delas localizada nos Estados Unidos. O registro chama atenção para o fato de que a área de Estudos Estratégicos caminha, rapidamente, para sua maturidade acadêmica no País. Tendo em vista o desenvolvimento da economia brasileira nos próximos anos, quando se espera que o Brasil exiba o quinto PIB do mundo por volta de meados deste século, pode se supor que o desenvolvimento do pensamento estratégico entre nós precisará dar conta dessa projeção econômica. Se assim for, pode-se também supor que recursos das agências de fomento tenderão a ampliar, fortalecer e consolidar a área. O Brasil necessitará, cada vez mais, nesse cenário, de estudos e reflexões que possam fundamentar a análise de sua inserção no sistema das relações estratégicas em termos globais, sem deixar de atentar sobre suas peculiaridades estratégicas nacionais. A REST, enfrentando dificuldades inerentes aos esforços pioneiros, pretende contribuir na pavimentação do caminho a ser trilhado.
Eurico de Lima Figueiredo
(Editor-Chefe)
